terça-feira, 10 de dezembro de 2013

1994 - A retomada do Rock Nacional



O que faltou de inovação no cenário do rock americano em 1994 transbordou em nossas terras tupiniquins.


Em diversas listas especializadas, encontramos como os principais albuns do rock internacional de 1994 títulos como "Grace", de Jeff Buckley, "Definitely Maybe", do Oasis e o "Blue Album", do Weezer, além, claro, do CD acústico do Nirvana. Em comum, todos os artistas compartilham de um rock "pós-grunge", ainda um pouco melancólico mas não tão pesado, ainda um pouco lento e arrastado mas não tão profundo.


Obviamente, fora dessas listas figuram grandes albuns que mantém a pegada revoltada e transgressora do rock, com um diálogo maior com o punk do que com o movimento musical da época em Seattle, o grunge. Green Day e Offspring, por exemplo, lançaram CD's bastante cultuados nesse ano, apesar de não tão reconhecidos. No ano seguinte, o Rancid viria a lançar um dos melhores discos de punk rock dos anos 90, "...And Out Come the Wolves", numa década que ainda veria o ressurgimento do Misfits, banda punk lendária que voltaria com dois grandes álbuns, "American Psycho" e "Famous Monsters".

Voltando a 1994, e voltando ao Brasil. Somente nesse ano, três bandas que transformaram completamente a cena de rock musical lançaram seu álbum de estréia. Impossível isso ser mera coincidência, ainda mais quando todos esses artistas tinham propostas em comum.


Os alemães tem um termo que, traduzido para o português, seria algo como "espírito do tempo, espírito de uma época, sinal dos tempos". Zeitgeist. E o Zeitgeist de um país pós-ditadura, querendo esquecer o seu passado e ao mesmo tempo se projetar para o futuro, vendo intensamente as mazelas sociais de um modelo político e econômico totalitário e excludente foi muito bem traduzido pelas bandas de rock dos anos 90. E o começo disso foi justamente em 1994.

Queria o destino que vinte anos depois do álbum Ramones, da banda Ramones, surgisse em Brasília o álbum Raimundos, da banda Raimundos*. Descendentes de paraibanos, os Raimundos seriam, como se autointitulavam, "uma versao paraíba dos Ramones". Na verdade, muito mais do que isso. A partir da influência de outros clássicos do punk, como Dead Kennedys, e da música sacana e regional de Zenilton, os Raimundos fundiram o punk ao forró, criando o que se chamou de "forró-core". No álbum de estréia, rocks pesados que ilustravam a vida na Paraíba, como a primeira faixa "Puteiro em Joao Pessoa", se mistuvaram com releituras de músicas de Zenilton, com ele mesmo no vocal, como no caso de "Cajueiro/Rio das Pedras". O global e o local se misturando de maneira que quase não ocorreu no rock em quase toda a década anterior.

Saindo de Brasília e indo para Recife. Diretamente do universo de Chico Science e Naçao Zumbi, aterrissou no nosso pensamento e na cena musical do Brasil um dos álbuns mais influentes da música brasileira, "Da Lama ao Caos".  Inspirados pela imagem de uma antena parabólica colcada na lama, surge nessa época o movimento de contra-cultura intitulado de "Maguebeat". Mais que um novo estilo musical, que misturou o maracatu com as tendências contemporâneas do rock misturado com rap, o movimento tinha um objetivo em mente, explicitado pelo manifesto "Carangueijos com Cérebro" escrito por Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S.A. A partir da metáfora do mangue como local de extrema biodiversidade, a nova cena musical de Recife propunha desobstruir as veias congestionadas da cidade, chamar a atençao para o crescimento descontrolado da mesma e conectar o mundo ao mangue, sem perder sua essência. Nao é a toa que a banda regravou Roberto Carlos e Jorge Mautner, por exemplo.

No Rio de Janeiro, onde todo camburão tem um pouco de navio negreiro, esse mesmo zeitgeist teria que se fazer presente. O rapa, com um pê e letra minúscula, é o nome que se dá quando a polícia recolhe as mercadorias de um vendedor ambulante. Com dois pês e letra maiúscula, é uma banda que é impossível de se enquadrar em um estilo, e também o nome de seu álbum de estréia, lançado em 1994. As misturas que O Rappa faz são tão difíceis de se definir que é capaz de afirmar que eles invetanram um estlo completamente próprio. Se nao fosse por cada um de seus integrantes, a banda não seria como é. As letras de Marcelo Yuka, a época baterista do grupo, dão a carga politica que, quando encontra o mistico vocalista Falcão, resulta num potente protesto social. A letra de "Brixton, Bronx ou Baixada", quinta faixa do CD de estréia, resume o conceito que atrevessa todas essas bandas. Cada qual com seu James Brown, cada qual com seu Jorge Ben.

Fica claro que depois de uma década de rock feito para embalar festas, muitas vezes descartável, e que mesmo quando de protesto ainda assim muito alegre, a cena roqueira brasileira precisava de profundas transformaçoes. Apesar disso, o embrião estava sim lá nos anos 80, seja com Marcelo Nova, Ultraje a Rigor, Ratos de Porão, ou mesmo com os Titãs, que através de seu selo Banguela produziram o primeiro CD dos Raimundos. Essa safra de discos de 1994, todos misturando o rock com elementos locais foi fundamental para reconstrução desse ritmo no Brasil, e abriu portas para diversas outras bandas. No ano seguinte, seriam lançados os álbuns de estréia do Planet Hemp e dos Mamonas Assassinas, bandas que mantém os mesmo valores descritos nesse texto e que fizeram imenso sucesso. O rock dos anos 90 foi um período de riquíssima produçao artística no Brasil, seja na sonoridade ou nas letras. Talvez lhe faltem o carisma de um Renato Russo ou um Cazuza, porque é muito difícil entender porque 1994 não é entendido como um dos anos mais importantes da história da música brasileira.


Por Flavio Chigres-Lessa

*Na verdade, os Ramones surgiram em 1974 e lançaram seu primeiro CD em 1976. Nesse caso, vale a máxima: "Nunca deixe a verdade entrar no meio de uma boa história". Espero que o leitor compreenda.

Nenhum comentário:

Postar um comentário